domingo, 13 de agosto de 2017

Não sei porquê...



                           Emile Munier                             

  não sei porquê...mexi contigo
e o meu desgosto esteve 
na dúvida de não ter entendido
o real e estranho motivo ...

reconheço-me na criança solitária
sedenta de ternura e compaixão
que encontra entre bichos e plantas 
aquilo que os outros não lhe dão...

Emile Munier

tu ,que julgas conhecer-me,
não o conseguirás se não despires 
a carapaça grosseira  
do conhecimento que tens ou te ficou 
 da humanidade com quem te cruzaste 
 em ruas e salões que frequentaste


 Chantal Poulin

 sou flor bravia, sou a brisa livre 
que vai passando e, se pode,
acalentando...


e ao fazer caminho ainda nesta estrada
não é jogo a jogar com gente estranha 
mas sentir quão tamanha
é a sede de saber, e amar, e ser
que ainda me move.

domingo, 16 de julho de 2017

Praias com e sem gente...


Não sei se ainda há praias desertas
Onde aves selvagens fazem ninhos
Onde céu e mar se confundem ao sol-por
E o mar a marulhar soa mansinho.


 Não sei se há ainda areias brancas
Onde se pisa sem olhar o chão
Na certeza de afundar os nossos passos
Sem o perigo de encontrar poluição.



O que conheço hoje das praias ao calor 
É o enxame de multidões  em confusão
Corpos em chama temendo a combustão
E gritos e cerveja e ralhos em surdina. 



A praia não é já o sítio de eleição 
Onde se esperava que a maré subisse 
Para que corpo e alma em comunhão
Exorcizassem doenças e chatices.



...Sei que o fim da tarde chamava à oração
Quando sol e horizonte se beijavam 
Como amantes separados pelo verão 
E sequiosos um do outro se deitavam.

Guardava-se o silêncio e o respeito
Que a doçura do momento apetecia
E via-se o dia acabar do mesmo jeito
Com que cada um de nós adormecia.

***
Praias não são já locais do encanto 
Onde  paz e simpatia davam mãos 
 Só são ruído e cor que causa espanto 
E nos fazem desejar  ecos mais sãos. 











sexta-feira, 30 de junho de 2017

Essência de vida...



- senti-te na rama dos pinheiros


-  na intensidade de uma onda


-  na nitidez de um golpe de sol


... embalei longamente nos meus braços
as tuas revoltas e cansaços... 
 desvelei-me em carícias
pelas noites cálidas de verão; 
guardei comigo os teus longos silêncios
que falavam do outono da vida; 
 na primavera, renovei a alegria
nos límpidos espaços...
e as minhas orações foram sempre carícias
que julguei enviar-te em palavras  
que quis belas, sem te embaraçar...
Só hoje percebi que sempre estiveste  lá
e eu não te vi...
foi pouco a pouco que a conhecer-te aprendi...
nem sempre na hora, porém;
muitas vezes, vi-me eu também a criar distância,
mas regressava...
Não pensei na vida,
nem me interessava a morte -  
-  só a essência da vida
que procurara em vão
até chegar a ti.

[02.10.2011], in Páginas de um diário encontrado

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Carta ao mal amado...



Não sou já flor de primavera


tão pouco papoula que dança ao vento de verão


ou baga sangrando, fruto da canícula...



Não, nada disso já sou.

O que ainda sou...já não sei bem.
Mas sei que metade de mim 
de há longo tempo para cá 
se habituou a existir 
porque existes 
e a vida é mais leve
porque sei que estás aí...
nunca soube bem onde:
nas agruras do tempo
no ocaso de mim
ou talvez, enfim,
na poluição das vozes
ou na confusão do silêncio.


E eu...
mesmo que o não pareça
apesar de tudo que aconteça
estou e estarei
aqui.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Sonhando impossíveis...

  
Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.


Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.

[Fernando Pessoa, 30-01-1927/in Ficções do Interlúdio/ Odes de Ricardo Reis]

A felicidade construída...

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

[Fernando Pessoa /06-04-1933, in Ficções Do Interlúdio/ Odes de Ricardo Reis]


As nuvens são sombrias
Mas, nos lados do sul,
Um bocado de céu
É tristemente azul.

Assim , no pensamento,
Sem haver solução,
Há um bocado que lembra
Que existe o coração.

E esse bocado é que é
A verdade que está
A ser beleza eterna



[Fernando Pessoa-1931)


Já ouvi doze vezes dar a hora
No relógio que diz que é meio-dia
A toda a gente que aqui perto mora.
( O comentário é do Camões agora:)
"Tanto que espera! Tanto que confia!"
Como o nosso Camões, qualquer podia
Ter dito aquilo, até outrora.

E ainda é uma grande coisa a ironia.

[Fernando Pessoa, 08-03-1931]

A beleza do sonhar...


Se alma é o fogo num animal humano,



~Que papel desempenha a fogosidade da paixão
 num ambicionado sentimento de felicidade plena?



Reflectir beleza, 
respirar harmonias de sons pelos olhos e ouvidos, 
aspirar ao equilíbrio do ser,
tentar respeitar todo o ser na natureza  ... 
conduzir-nos-á à emoção sentida de uma felicidade consentida?... 


Pureza de intenções unida à sensação dúbia de uma liberdade assumida... será um outro caminho possível?...
Aguardam-se - impossíveis- respostas.

Sonhando...







[...]

Não foi para servos que nascemos
Da Grécia ou Roma ou de ninguém.
Tudo negamos e esquecemos;
Fomos para além.

[...]

Pessoa, Fernando in Quinto Império


domingo, 14 de maio de 2017

A extensão da linha da vida...


E se viver for apenas morrer segundo a lei universal? Ou, de acordo ainda com esta, se transformar? 
Nada se sabe, ou pouco.
 Que importância tem  então a fusão da energia cósmica, a evolução da energia no homem, outros animais, plantas,minerais e rochas, se nem sabemos se acontecem por um acaso ou se tudo já estava previsto desde a eternidade para cada um deles?
Observo uma linha de vida a escorregar suavemente na linha do pulso onde veias azuis se destacam na alvura rosada da pele, exemplo de vida activa, de momento isenta de contratempos ou ameaças, nessa leveza transparente de algo que se diluía num absurdo triângulo de dúvida: longa? Não longa? E que interessa isso se viver significa morrer segundo a tal lei universal?

 ... Lá no fundo, ter a consciência de que nada se sabe é a essência do apreender em permanência novas realidades e ser capaz de fantasiar sonhos irreais com a facilidade inocente da criança que escancara para a vida olhos curiosos ou encantados.
 Não tem de se sentir feliz ou infeliz, alegre ou triste, todo aquele que se confessa ignorante - apenas tem de se acostumar a olhar o mundo com esse inocente encantamento de quem nunca pediu para existir e sabe que existe para se diluir no nada como um qualquer outro ser...destino impreciso e inelutável da matéria que se repele e agita, se atrai e consome, se ama e odeia, diverge ou se associa...  se respeita ou devora para sobreviver.
 Todos estes actos e sentires existem mais ou menos conscientes nos variados seres  da criação, uns mais, outros menos carentes,uns mais, outros menos inocentes, outros ainda mais cientes das realidades do tempo vivido e do espaço ocupado.

Em laivos de cansaços,
Buscando conhecer
Miríades de seres
Ao longo dos milénios,
Silenciei.
.
Quis compreender
E não compreendi.
Chegou lento o sufoco...
Emudeci.
Sei que lutei, sofri, vivi...
E tudo o resto...é  nada.