quinta-feira, 25 de maio de 2017

Sonhando impossíveis...

  
Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo.
Não, pois, meu modo de pensar nas coisas,
Nos seres e no fado me consumo.


Para mim crio tanto
Quanto para mim crio.
Fora de mim, alheio ao em que penso,
O Fado cumpre-se. Porém eu me cumpro
Segundo o âmbito breve
Do que de meu me é dado.

[Fernando Pessoa, 30-01-1927/in Ficções do Interlúdio/ Odes de Ricardo Reis]

A felicidade construída...

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

[Fernando Pessoa /06-04-1933, in Ficções Do Interlúdio/ Odes de Ricardo Reis]


As nuvens são sombrias
Mas, nos lados do sul,
Um bocado de céu
É tristemente azul.

Assim , no pensamento,
Sem haver solução,
Há um bocado que lembra
Que existe o coração.

E esse bocado é que é
A verdade que está
A ser beleza eterna



[Fernando Pessoa-1931)


Já ouvi doze vezes dar a hora
No relógio que diz que é meio-dia
A toda a gente que aqui perto mora.
( O comentário é do Camões agora:)
"Tanto que espera! Tanto que confia!"
Como o nosso Camões, qualquer podia
Ter dito aquilo, até outrora.

E ainda é uma grande coisa a ironia.

[Fernando Pessoa, 08-03-1931]

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A beleza do sonhar...


Se alma é o fogo num animal humano,



~Que papel desempenha a fogosidade da paixão
 num ambicionado sentimento de felicidade plena?



Reflectir beleza, 
respirar harmonias de sons pelos olhos e ouvidos, 
aspirar ao equilíbrio do ser,
tentar respeitar todo o ser na natureza  ... 
conduzir-nos-á à emoção sentida de uma felicidade consentida?... 


Pureza de intenções unida à sensação dúbia de uma liberdade assumida... será um outro caminho possível?...
Aguardam-se - impossíveis- respostas.

Sonhando...







[...]

Não foi para servos que nascemos
Da Grécia ou Roma ou de ninguém.
Tudo negamos e esquecemos;
Fomos para além.

[...]

Pessoa, Fernando in Quinto Império


domingo, 14 de maio de 2017

A extensão da linha da vida...


E se viver for apenas morrer segundo a lei universal? Ou, de acordo ainda com esta, se transformar? 
Nada se sabe, ou pouco.
 Que importância tem  então a fusão da energia cósmica, a evolução da energia no homem, outros animais, plantas,minerais e rochas, se nem sabemos se acontecem por um acaso ou se tudo já estava previsto desde a eternidade para cada um deles?
Observo uma linha de vida a escorregar suavemente na linha do pulso onde veias azuis se destacam na alvura rosada da pele, exemplo de vida activa, de momento isenta de contratempos ou ameaças, nessa leveza transparente de algo que se diluía num absurdo triângulo de dúvida: longa? Não longa? E que interessa isso se viver significa morrer segundo a tal lei universal?

 ... Lá no fundo, ter a consciência de que nada se sabe é a essência do apreender em permanência novas realidades e ser capaz de fantasiar sonhos irreais com a facilidade inocente da criança que escancara para a vida olhos curiosos ou encantados.
 Não tem de se sentir feliz ou infeliz, alegre ou triste, todo aquele que se confessa ignorante - apenas tem de se acostumar a olhar o mundo com esse inocente encantamento de quem nunca pediu para existir e sabe que existe para se diluir no nada como um qualquer outro ser...destino impreciso e inelutável da matéria que se repele e agita, se atrai e consome, se ama e odeia, diverge ou se associa...  se respeita ou devora para sobreviver.
 Todos estes actos e sentires existem mais ou menos conscientes nos variados seres  da criação, uns mais, outros menos carentes,uns mais, outros menos inocentes, outros ainda mais cientes das realidades do tempo vivido e do espaço ocupado.

Em laivos de cansaços,
Buscando conhecer
Miríades de seres
Ao longo dos milénios,
Silenciei.
.
Quis compreender
E não compreendi.
Chegou lento o sufoco...
Emudeci.
Sei que lutei, sofri, vivi...
E tudo o resto...é  nada.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

When Winter Comes - CHRIS DE BURGH


Quando o inverno chega e  há frio  que aperta e liquefaz os ossos, recordo que já o sofri em muitos e antigos momentos que evito recordar, mas até vou recordando... e vejo ainda dentro de mim tanta criança que caminha com os pés enregelados em direcção à escola, ou no regresso desta para casa...onde nem sempre luz o fogo na lareira ou apenas há a vizinha que possui uma enorme braseira quente. Às vezes por inadvertência e alguma inocência, colocam-se as mãos sobre a cinza para as aquecer...caem e torna-se horrível a sensação de dor!
Recordo os sem-abrigo, e os velhos que não possuem aquecimento nem  calor humano...
e sinto-me grata  aos deuses do acaso e do esforço continuado para melhorar de vida que sempre guiou os meus ancestrais e os meus próprios passos.
Que poderei fazer para melhorar toda esta desumanidade em que tristemente se vai arrastando a vida?

sábado, 26 de novembro de 2016

Névoas, neve, chuva...



dia de outono de névoas e sombras 

um ar parado 
na angústia das coisas que não foram

lágrimas em gotas grossas 
  chuva insistente
onde não cabem silêncios nem poemas 
nem subentendidos mistérios gotejando 
e empurrados pelo vento...

Lá fora, só cai a chuva.
soturnamente alagando tudo

braços entrelaçados de árvores
suplicando na humidade cinza
buscam refúgios impossíveis
na imaterialidade suja do dia enevoado

Se parar a chuva, a neve 
 não terá já brancuras de linho 
e desfar-se-á em manchas lodosas
no chão  pisado  por muitos passos
onde de há muito folhas apodrecem.

um ciclo enevoado de escuridão e frio
sela  doridamente a natureza 
que o sol flagelou impiedoso...

consternadas, as plantas inclinam com pesar
as hastes lacrimosas



por detrás da janela
fixo nos pequenos espelhos de água parada
uns vislumbres de luz


 não vejo gente... mas sombras
de uma humanidade insana,
tantas e tantas vezes cruel,
que se rege pelos pés...
e nelas transluz.